Qualificação é o grande desafio do setor


Por Martha Funke | Para o Valor, de São Paulo

A escalada do número de shopping centers Brasil afora coloca as gestoras do segmento frente ao desafio extra de conseguir mão de obra qualificada, tanto para gestão como para áreas de base.

Nos últimos cinco anos, o número de shoppings em operação no país cresceu 25%. Em 2012, o total de inaugurações deve chegar a 37 e, no ano que vem, serão mais de 40, somando cerca de 13 milhões de metros quadrados de área bruta locável (ABL), o que fará o índice de crescimento bater de novo na casa dos 25%. A expansão deve elevar para 1 milhão o número de pessoas trabalhando em shopping centers ao final de 2013 – 230 mil trabalhadores a mais do que os 775 mil registrados pelo setor em 2011.

Como faltam pessoas especializadas, as empresas começaram a investir em programas de retenção, capacitação e promoção de profissionais para suprir as vagas abertas. “As grandes começaram a assediar demais os funcionários das menores”, diz Dorival Regini, presidente da Landis, que administra sete shoppings pelo interior do país e no fim do ano passado inaugurou o primeiro da cidade de Rio Branco, no Acre.

Como a dificuldade de conseguir mão de obra especializada é maior longe dos grandes centros, principalmente para cargos de gestão, o jeito é buscar profissionais de outras indústrias, como construtoras, auditorias ou varejo, além de formar a prata da casa. Para compor a equipe do Via Verde, em Rio Branco, a solução foi uma escalada de promoções que levou para a gerência financeira do novo shopping Glauce Tanus, que começou como gerente financeira no Plaza Macaé (RJ). “Fui me envolvendo com o departamento financeiro para assumir a gerência da área”, diz.

Processo parecido levou André Fioravante para a superintendência do recém-inaugurado shopping Luiziânia, cidade satélite do Distrito Federal, depois de passagens pelo campineiro Dom Pedro e pelo Pátio Brasil, no centro de Brasília, de onde saiu como gerente administrativo-financeiro. Neste percurso, André percorreu praticamente todas as áreas de um shopping, onde começou como auditor. “Deu segurança para assumir o cargo”, diz.

Para o responsável pela contratação, Eduardo Augusto Gomes, um dos sócios da gestora Semma, a estratégia cai como uma luva para empreendimentos em cidades menores, cuja capacidade de remuneração é bastante inferior à de shoppings de grandes centros. Segundo ele, uma corporação pode se dar ao luxo de criar planos de carreira mais estruturados, mas empreendedores independentes precisam recorrer à disponibilidade do mercado. “A rotatividade é grande”, admite.

Com 26 empreendimentos, seis deles em desenvolvimento, a estratégia da Semma retrata as possibilidades do mercado. Do ano passado para cá, a empresa contratou seis gerentes gerais, dos quais dois foram promovidos internamente, dois atraídos da concorrência e mais dois de outras áreas, como o varejo. “Gente de fora também colabora para trazer um novo olhar”, aponta a diretora de Recursos Humanos, Carolina Povoa.

A atratividade do setor para profissionais de outras áreas também é observada pelo presidente da Abrasce, Luiz Fernando Pinto Veiga. “Quando promovemos eventos, atraímos profissionais que não são do segmento”, informa ele. Segundo ele, a carência de mão de obra especializada não é prerrogativa dos shopping centers, mas pode ter colaborado para adiar a inauguração de cinco empreendimentos prevista para este ano. A entidade se esforça para formar profissionais com a realização de eventos como o 12º Congresso Internacional, que será realizado este ano, e parcerias para cursos de especialização, como o programa de extensão em marketing em conjunto com a Escola Superior de Propaganda e Marketing, o intensivo JTR, com o International Concil of Shopping Centers (ICSC), e o MBA em Gestão de Shopping, do Insper.

De acordo com a coordenadora do curso, Ana Paula Cardoso, já passaram quase 90 participantes pelo programa, que forma sua segunda turma em setembro. “Uma nova turma já está programada para agosto de 2013″, avisa. O curso, cujo custo está por volta de R$ 35 mil, oferece 360 horas aula em 18 meses, m três dias consecutivos para facilitar a participação de alunos de outros estados, que já são mais da metade dos inscritos.

A terceira turma do curso, iniciada em março, conta com 25 profissionais de perfil sênior. Um deles é Carlos Eduardo Cardoso, superintendente do shopping Cidade Garapu, em Cabo Santo Agostinho (PE), que embora tenha estado envolvido no empreendimento desde seu nascimento resolveu participar do programa para vivenciar outras experiências além daquelas que vive no dia a dia. A questão jurídica e o relacionamento com o poder público estão entre os temas que mais chamaram sua atenção. “Precisamos estar à frente das novas necessidades impostas pelo poder público”, observa.

A questão é que nem só de gestores vivem os shoppings – pelo contrário, há imensa necessidade de profissionais de base e técnicos para setores tão díspares quanto estacionamento, manutenção de ar condicionado ou automação predial, além de uma verdadeira multidão de colaboradores exigida pelas lojas. Uma iniciativa recente com foco nesta camada é da Associação Brasileira dos Lojistas de Shopping (Alshop), que criou a Universidade do Varejo, com cursos semipresenciais de 40 horas divididas entre shoppings associados e ambiente virtual dirigidos a gestores, supervisores e proprietários de lojas.

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